“Estávamos ao lado dele na cama, fizemos uma oração, um grupo de amigos, e assim que dissemos ‘amém’, ele morreu. Coisa de artista”. As palavras são de Daniel D’Ângelo, marido da cantora Angela Maria, amiga de Cauby há 67 anos. Ao lado dela, o cantor estava em turnê pelo Brasil com o show “120 Anos de Música”. No repertório, baseado no disco “Reencontro”, músicas que marcaram as trajetórias dos dois artistas, como “Vida de Bailarina”, “Gente Humilde” e “Bastidores”. A última apresentação dos dois juntos foi no dia 3 de maio, no Theatro Municipal do Rio.

“Eu não esperava que ele fosse tão cedo, queria que ele ficasse muito mais tempo. Perdi não só um amigo, mas um irmão”, lamenta Angela Maria. “Cauby era mais alegre no palco do que fora. Fora, ele falava pouco. Era uma pessoa que não abria a boca para falar mal de ninguém. Ele achava todo mundo maravilhoso”.

Segundo ela, Cauby já demonstrava não estar bem no último show que fizeram juntos, no último dia 3, no Theatro Municipal do Rio. “Perguntei se ele estava bem, ele disse que sim, mas não estava. No palco, notei que ele estava muito mal, bem fraquinho”.

No velório, amigos e família prestaram suas últimas homenagens ao artista, na Assembleia Legislativa de São Paulo. O corpo chegou ao local por volta das 9h.

Empresária que morava com Cauby há 16 anos, Nancy Lara organizou o velório. Emocionada, ela conta que escolher uma roupa para o cantor foi o momento mais difícil, mas que resolveu vesti-lo como ele gostava de se apresentar. “Pensei: ‘Ele vai fazer um show no céu. E foi assim que o vesti”, diz.

Segundo Nancy, Cauby estava bem, mas teve uma piora súbita. Alegre, ele cantava suas músicas para os funcionários do hospital onde estava internado. Os dois se conheceram nos anos 80, quando ele convidou a fã para ir ao camarim de uma apresentação sua no Rio de Janeiro. Pouco antes ela havia entregado uma flor amarela para o ídolo, símbolo usado pelas fãs do cantor. “Você me conquistou com uma flor”, dizia Cauby à Nancy, segundo relato da empresária.

Ela afirma que o Brasil perde um pouco do glamour com a morte do astro. E conta que Cauby deixou um CD inacabado, para ser lançado no fim do ano, mas não soube dar detalhes.

Nancy agora espera também conseguir criar um memorial com o acervo de fotos, gravações, roupas e troféus deixado pela artista, o que ela tenta há anos, sem sucesso. “Ele e Ângela Maria precisam (de um memorial para seus acervos)”.

Bolo na boca. Entre os fãs que foram ao velório de Cauby, a dona de casa Maria Caroni, 73, foi quem se destacou. “Ouvi Cauby pela primeira vez no rádio em 1954. Em 62, conheci ele pessoalmente na Rádio Record em São Paulo. Era paixão”, disse.

Questionada sobre a quantos shows de Cauby assistiu, ela respondeu, brincando: “Pelo menos um milhão”. Em fevereiro deste ano, Maria foi a um show de aniversário do cantor no Sesc Pompeia, em São Paulo: “Dei bolo na boca dele”.

Sobre sua maior loucura de fã, Maria Caroni respondeu: “Faz um ou dois anos que subi no palco e dei um beijo nele. Ele me beijava sempre na boca. É que eu estava lá, me deu vontade e eu fui. Mas eu nunca fui atrevida e por isso ele sempre me recebia, era com respeito”.

Cerca de cem pessoas fizeram uma roda de oração pelo artista durante o velório. Também cantaram em coro a música “Conceição”, lançada por ele em 1956. O cantor Agnaldo Timóteo cantou “Nossa Senhora”.

Enterro. Enquanto parafusavam a tampa do caixão com o corpo de Cauby, Nancy Lara foi a última a acariciar seu rosto e repetir o gesto sobre o vidro do esquife. Segundos depois, o caixão saiu carregado por parentes e amigos do músico.

Amigos e parentes novamente entoaram versos de “Conceição” no enterro. Ângela Maria cedeu o túmulo de seu jazigo para que o cantor fosse sepultado no cemitério Congonhas. O túmulo foi coberto por coroas de flores, a última delas enviada pelo empresário e apresentador de televisão Silvio Santos. O enterro de Cauby foi rápido e sem discursos. Amigos próximos diziam que o músico seria cremado, mas no último minuto a família mudou de ideia.

“Ele será sempre uma matriz”, afirma Marcelo Veronez

Apesar de não ter guardado relação íntima com Minas Gerais, Cauby Peixoto influenciou diferentes gerações de cantoras e cantores mineiros, que lamentaram sua partida e destacaram sua herança musical.

Um deles é Marcelo Veronez, para quem o legado do cantor carioca vai muito além da voz. “Cauby tinha essa coisa de assumir seu lado feminino, com uma voz forte e uma presença única. Enfrentou todo os tipos de preconceito e manteve-se fiel à sua imagem. Isso é muito bonito, e influenciou o meu jeito de agir no palco”, diz o cantor.

Veronez comenta, ainda, a capacidade de interpretação de Cauby. “Ele fez grandes transformações nas músicas que cantou. Ninguém consegue mais gravar ‘Bastidores’, porque o Cauby pegou para ele”, brinca, referindo-se à música de Chico Buarque. “Ele será sempre uma matriz. Desenvolveu o trabalho de intérprete com linguagem muito própria”, completa.

Para Vander Lee, Cauby é como “um Frank Sinatra latino”. “Ele foi um dos últimos cantores de ofício da música brasileira. Seu charme resistiu para além da Era do Rádio”, defende. “Perdemos um cantor de jazz de altíssimo nível, num país que não costuma promover cantores jazzísticos”, afirma o mineiro, lembrando da emblemática “Conceição” na voz de Cauby.

A cantora Aline Calixto também lembra a singularidade da voz do artista. “Cauby tinha uma voz insubstituível. Existem intérpretes que você escuta a primeira frase da música e sabe quem é. Cauby, sem dúvidas, foi o maior deles”, afirma. “Ele prestou um grande serviço como divulgador da música brasileira para outros países”, finaliza. (Lucas Buzatti)