O número de casos suspeitos e confirmados de dengue em Minas neste ano já é quase o mesmo do que o registrado em todo o ano passado. E a doença, propagada pelo Aedes aegypti, não dá trégua para nenhuma faixa etária, nem mesmo as crianças.

Apenas no Hospital Infantil João Paulo II (antigo CGP), em Belo Horizonte, a procura por atendimento pediátrico por causa da dengue neste ano é dez vezes maior do que a demanda registrada em 2013, quando foi registrado um pico da doença no Estado.

Todos os dias a unidade de saúde recebe cerca de 200 crianças no pronto-atendimento, sendo que uma média de 30% dos casos são diagnosticados como dengue. Com uma equipe de quatro pediatras para o atendimento de urgência e emergência, há sobrecarga de trabalho e o resultado é um tempo de espera maior para os pacientes.

A demanda, que já é alta, deve crescer ainda mais nos próximos dois meses com a mudança da estação e o início do período de maior incidência de problemas respiratórios. “Isso nos preocupa porque a pressão sobre o serviço de saúde vai ser grande. Normalmente, quando ultrapassamos os 150 atendimentos por dia, temos um tempo maior de espera. E já passamos desse número há algum tempo”, relata o diretor do hospital, Luís Fernando Carvalho.

Espera

Apesar de toda a procura, a unidade de saúde ainda tem média de tempo de espera bem mais baixa do que outras opções procuradas pelos pais. Apenas para conseguir fazer o diagnóstico da sobrinha de 9 anos, Marinez da Costa Silva, de 51 anos, teve que esperar quase o dia inteiro em uma instituição médica no Barreiro.

“Além de ter que ficar todos juntos numa sala lotada, adultos e crianças, não tinha nem lugar pra sentar. Agora, ela está internada e vai ficar melhor. Tomamos todos os cuidados, mas ainda assim ela pegou dengue”, conta Marinez, tia de Maryana Naianne Oliveira, que está com suspeita de dengue hemorrágica.

Assim que a menina apresentou os primeiros sintomas, durante o fim de semana passado, a família procurou ajuda médica. Uma prática que deve ser adotada por todos, segundo recomendação do diretor do João Paulo II. “Crianças, assim como os idosos, fazem parte do grupo de risco, desidratam com maior facilidade e precisam de maior atenção, já que os sintomas não aparecem tão claros como nos adultos”, afirma o médico.

O especialista ainda ressalta que, com a chegada do outono e a incidência maior de casos de infecção respiratória, os pais devem fazer uma análise prévia do quadro a fim de não lotar ainda mais as unidades de saúde.

Para minimizar os impactos da alta procura que está por vir nos próximos meses, o Hospital Infantil João Paulo II realiza um processo de contratação emergencial de oito médicos. O objetivo é ter, nos horários de pico, seis médicos para o pronto-atendimento.

Moderação no uso de repelentes

Apesar do alerta provocado pelo aumento do número de casos de crianças atendidas em BH por causa da dengue, os pais devem ter critério na hora da prevenção. O repelente, considerado por alguns como arma indispensável no combate à doença, deve ser usado com moderação nos menores de 2 anos. Nos bebês com menos de seis meses, o produto sequer pode ser aplicado.

“Nesta fase não há indicação de uso porque o repelente tem produtos químicos prejudiciais ao bebê. Entre seis meses e 2 anos, há a indicação do uso apenas do tipo ‘repelente baby’, com um princípio ativo (IR3535) diferente daquele usado nos adultos (DEET)”, explica a presidente do Comitê de Infectologia Pediátrica da Sociedade Mineira de Pediatria, Andréa Lucchesi.

Ainda é preciso ficar atento para a quantidade utilizada nos pequenos, que não deve ser uma dose superior a três vezes ao dia. “Os pais não devem deixar que a criança passe o produto, porque depois ela pode colocar as mãos nos olhos e boca. Também não é indicado que a criança durma com o repelente na pele, pois durante o sono estaria exposta a um período muito longo de exposição ao produto químico, que pode causar alergias”, afirma a médica.

Artifícios

Para os menores de seis meses, a prevenção fica mesmo por conta das roupas e acessórios que podem ser instalados nas residências. Os mais indicados são as telas nas janelas, que impedem a entrada do mosquito, e o cortinado no berço ou cama onde a criança dorme.

Aqueles com idade entre 2 e 12 anos, já é liberado o uso do mesmo repelente de adultos. Entretanto é preciso que seja observada a fórmula do produto e analisada a frequência e quantidade das doses, levando em conta o fato de ser uma criança.

Para todas as idades, inclusive bebês, a especialista indica o uso de óleo mineral, que gera uma proteção sem consequências para a saúde. “O óleo dura cerca de uma hora, o que é um tempo menor que o repelente, mas evita que o mosquito pouse na pele e não tem toxicidade”, ressalta Andréa.