Carlos Prates, Lagoinha e Bonfim: exemplos de bairros belo-horizontinos tombados para garantir a proteção e preservação de seus acervos arquitetônicos. O escritório Horizontes Arquitetura e Urbanismo fala sobre a importância desta intervenção para a história da cidade

 

Quando falamos em tombamento, geralmente associamos a tesouros arquitetônicos e históricos, tais como as cidades de Ouro Preto ou Tiradentes, por exemplo. A história, no entanto, se passa em todos os lugares. Em Belo Horizonte alguns bairros guardam, ainda que de maneira mais discreta, seus próprios tesouros. É o caso da Lagoinha, do Carlos Prates e do Bonfim, localizados na região noroeste da capital mineira, e tombados recentemente.

De acordo com o arquiteto e urbanista Luiz Felipe de Farias, diretor do escritório Horizontes Arquitetura e Urbanismo, o tombamento destas regiões não foi definido por causa dos estilos arquitetônicos tradicionais, pois a maioria das edificações antigas destes três bairros têm arquitetura simples, sem excessos e sem estilos bem definidos, além de uma altura quase uniforme, entre um e três pavimentos. As casas e os comércios locais foram construídos por artesãos, sem supervisão de arquitetos, e eles se inspiravam e misturavam referências da arquitetura colonial e dos “palácios” neoclássicos da cidade. “Por isso, até pouco tempo atrás, a arquitetura destas regiões não recebia atenção dos meios acadêmicos. Recentemente, os arquitetos e órgãos de tombamento começaram a pesquisar, catalogar e estudar as características dessas edificações e de seus moradores, identificando sua importância. Apesar de simples, as edificações têm características comuns, de forma que assinalam um conjunto urbano uniforme. A importância histórica se dá pela contribuição que estes bairros tiveram para a formação da cidade. Os três bairros foram ocupados por imigrantes e também pela população de trabalhadores e operários que ajudaram na construção de Belo Horizonte e que não podiam arcar com os altos custos de moradia dos bairros centrais”, explica.

Luiz Felipe esclarece que a Lagoinha foi o primeiro bairro ocupado fora dos limites do perímetro da Avenida do Contorno e que a abertura de um ramal férreo na região impulsionou o comércio e a vida boêmia, características que marcaram o bairro. Já o Bonfim possui o mais antigo e mais tradicional cemitério da cidade, onde existem várias lápides e mausoléus que foram projetados e construídos por importantes escultores e arquitetos, mostrando estilos variados e importantes do começo do século XX como Art Dèco, Belle Époque e Modernismo. “O bairro Carlos Prates, por sua vez, teve uma influência sutil da arquitetura modernista, principalmente da Pampulha. Os artesões e mestres de obra seguiam uma tradição construtiva e decorativa passadas de pai para filho, sem relação com os estilos tradicionais. Após a construção do

Conjunto da Pampulha, os artesãos e mestres de obra começaram a se influenciar pela novidade modernista, e absorveram em suas obras alguns elementos característicos desta arquitetura, como pilares de tubos metálicos, alpendres cobertos por lajes planas, telhados invertidos, etc”, relata o arquiteto.

Apesar desses bairros não possuírem um grande conjunto de edifícios marcantes ou projetados por importantes arquitetos, as histórias que os cercam são únicas e os diferenciam do restante da cidade, o que justifica o tombamento destes locais, garantindo, no futuro, que eles estejam preservados e ajudem a contar um pouco da história da capital mineira.

Segundo Luiz Felipe, como o tombamento foi recente, em dezembro do ano passado, ainda não se pode dizer com clareza os impactos e benefícios reais para os moradores da região. “De qualquer forma, as diretrizes de tombamento deixam claro que o objetivo principal é preservar as características principais que diferenciam estes bairros do restante da cidade, especialmente: preservar a baixa altimetria no entorno de marcos simbólicos como cemitério do Bonfim e igrejas; preservar algumas casas com características únicas e especiais (construídas no início do século XX); preservar as vistas dos três bairros para a Serra do Curral; preservar vistas da cidade para o Cemitério do Bonfim e do cemitério para outras partes da cidade. Ao mesmo tempo, as restrições não impedem que os bairros continuem crescendo e que hajam novas construções, porém as novas regras definirão diretrizes para que novas edificações respeitem as edificações vizinhas e as características históricas dos bairros. Desta forma estes bairros serão valorizados, pois terão uma importância histórica e leis que garantirão crescimento harmonioso”, encerra o arquiteto.