As vidas de pelo menos 20 mil pessoas, moradoras em quatro estados brasileiros, foram transformadas em função de redes formadas nas respectivas comunidades, entre 2014 e 2016. Um balanço da trajetória de sucesso dessas redes, bem como a indicação de perspectivas futuras, aconteceram no Encontro Final do Fundo Comunidade em Rede, realizado entre os dias 21 e 23 de junho, em Pedro Leopoldo (MG).

      As redes foram de fato constituídas a partir de onze projetos apoiados pelo Fundo Comunidade em Rede, uma iniciativa do Bloco Brasil da RedEAmérica, que reúne institutos e fundações empresariais. O Fundo teve apoio da Fundação Interamericana (IAF), ligada ao governo dos Estados Unidos.

      Os onze projetos resultaram em redes envolvendo mais de 90 organizações. São associações de moradores, organizações da sociedade civil, secretarias municipais, grupos que atuam na defesa do meio ambiente ou na promoção de atividades culturais. As redes englobaram, portanto, organizações sociais, do poder público e do setor empresarial, em função do respaldo que o instituto ou fundação do Bloco Brasil deu a cada projeto, no respectivo território de atuação.

      Os aprendizados, avanços e desafios identificados durante o funcionamento do Fundo Comunidade em Rede foram discutidos pelos quatro consultores que atuaram desde o planejamento inicial, em 2012, até o Encontro Final, em junho de 2016.

     Responsável pelo planejamento de constituição e funcionamento do Fundo Comunidade em Rede, Célia Schlithler elencou uma série de razões, ou estratégicas aplicadas, que, a seu ver, explicam o sucesso do funcionamento das onze redes comunitárias.

      Uma delas é a valorização da cultura e história dos territórios onde os projetos foram implementados. É o caso do Projeto “Ponte: Saberes e Fazeres”, desenvolvido nos municípios baianos de Cachoeira e São Félix, com apoio do Instituto Votorantim, e que resultou em muitas melhorias para a comunidade quilombola de Kaonge.

      Outras estratégias vitoriosas, afirmou Célia Schlithler, são o tratamento pelos projetos de temas relevantes para as comunidades e o envolvimento de crianças e adolescentes e de escolas públicas. É o exemplo do Projeto Rede Comunitária de Aprendizagem (RECOA)”, que tem o Instituto Holcim como signatário e é desenvolvido em Pedro Leopoldo (MG). O Projeto levou à mobilização de vários bairros pela coleta seletiva de resíduos recicláveis, com o envolvimento de crianças e adolescentes que executaram os Muros Inteligentes, muros grafitados e que operam como um convite ao depósito desses materiais recicláveis nas escolas municipais. Os resíduos são levados à Associação dos Catadores de Papeis de Pedro Leopoldo (ASCAPEL).

       A consultora Célia Schlithler também ressaltou que muitos resultados dos onze projetos estavam entre os objetivos previstos no planejamento inicial para o Bloco Brasil da RedEAmérica, em 2012. É o caso do empoderamento, emancipação e autonomia, observados em relação às mulheres envolvidas no Projeto “Conquistar Espaços”, em Jacareí (SP), com suporte do Instituto Intersemente. Mulheres do bairro Veraneio Ijal que antes não sabiam ler foram alfabetizadas, pela instalação de uma sala de Educação de Jovens e Adultos na comunidade, como um dos resultados do projeto.

      Por sua vez, a consultora Márcia Silva foi a facilitadora das capacitações das organizações que participam dos onze projetos. Ela destacou justamente a superação do desafio que é trabalhar em rede. “Vocês conseguiram porque souberam juntar e reconhecer os conhecimentos de cada um e souberam ouvir o outro, se colocaram no lugar do outro, visando o objetivo maior que era a formação e funcionamento da rede”, disse Márcia, dirigindo-se aos representantes dos onze projetos, reunidos no Encontro Final de Pedro Leopoldo.

     O consultor Felipe Brito evidenciou, de sua parte, a importância da sistematização dos processos de constituição de redes comunitárias, como aquelas formadas como resultado do Fundo Comunidade em Rede. “Quando contamos histórias, deixamos a história viva”, acentuou o consultor, mostrando, então, como é importante cada rede pensar e refletir sobre a sua trajetória, resultando na sistematização de um trabalho que pode ser referência para outros grupos, para outras redes.

       Outro consultor que atuou junto aos projetos, na fase final da sistematização, Wladimir Machado acentuou que, na sua opinião, o principal resultado das redes é o aumento da autoestima dos envolvidos.

       O Fundo Comunidade em Rede terminou o seu tempo previsto de duração, mas todos os onze projetos manifestaram a perspectiva de continuidade das ações. Uma das decisões tomadas no Encontro Final em Pedro Leopoldo foi a constituição de uma “rede das redes”, um canal de comunicação entre as onze redes através de redes sociais na Internet.