Expectativa é que índice abra 2015 com alta próxima de 7% para 12 meses.
É possível ainda, que, neste ano, o rendimento dos lares brasileiros registre queda real, o que não ocorre desde 2003

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A dona de casa Eliana de Araújo Santos, de 38 anos, sabe muito bem o quanto a inflação é perversa, sobretudo com os mais pobres. Pouco antes do Natal de 2014, ela decidiu preparar um frango para o almoço, a fim de fugir dos sucessivos reajustes da carne bovina, que havia subido 20% desde janeiro. Saiu de casa com R$ 10, imaginando voltar com o produto e, se possível, o troco para o pão do dia seguinte. “Escolhi o frango mais descongelado, para não pesar tanto, e, ainda assim, deu R$ 13. Não me esqueço do susto que tomei”, conta. Para não deixar os filhos Gabriel, de 4, e André Felipe, de 2, sem uma refeição “decente”, recorreu a um mexido. “É de assustar”, diz o marido, Ednaldo, de 41.
A dona de casa conta que os R$ 370 de tíquete-alimentação que Ednaldo recebe não são mais suficientes para a compra da cesta principal para o mês. Em um semestre, calcula ela, o carrinho com os mesmos produtos encareceu cerca de 30%. Para não afetar tanto o padrão de vida da família, os iogurtes da criançada estão ficando de fora e as marcas mais baratas passaram a ser priorizadas. O marido dela tem ido ao trabalho de ônibus para economizar combustível e evitar que o carro, ano 1996, quebre, demandando despesas extras. “Paguei R$ 10 mil à vista pelo carro em 2012, dinheiro que poupei com sacrifício. Hoje, não consigo fazer sobrar R$ 1 do orçamento”, reclama o chefe da família.

CAUTELA Na avaliação de Carlos Thadeu de Freitas Gomes, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), os brasileiros como Eliana e Ednaldo terão que ter muita cautela com os gastos em 2015. Tudo ficará mais caro — no primeiro trimestre, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) passará de 7% —, já que o governo decidiu cair na real e corrigir distorções que estavam levando o país para o atoleiro. A maior pancada no orçamento das famílias virá da energia elétrica, com aumento de 8% em janeiro e, na média, de 30% em todo o ano. “O poder de compra das famílias ficará comprometido”, complementa Evandro Buccini, economista-chefe da Rio Bravo Investimentos. Pelos cálculos dele, é possível que, neste ano, pela primeira vez desde 2003, a renda dos lares tenha queda real.

Portanto, avisa o economista e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) José Luiz Oreiro: “Antes de melhorar, a situação vai piorar muito”. Para ele, ainda que a nova equipe econômica tenha autonomia para fazer os ajustes necessários, será tarde demais para evitar estragos nos orçamentos domésticos provocados pela perversa combinação de inflação persistente e juros altos.

“O custo de derrubar a carestia de maneira rápida seria uma recessão sem precedentes”, diz Oreiro. “Então, veremos medidas graduais, que só mostrarão resultados efetivos a partir de 2016. Foram muitos os erros do governo. O maior deles, ter brincado com a inflação. Agora, mesmo com o crescimento próximo de zero da economia, a taxa básica de juros (Selic) — hoje, em 11,75% ao ano — terá que subir mais, talvez para 12,50% ou 13%”, assinala.

Diretor de Política Econômica do Banco Central (BC), Carlos Hamilton Araújo tenta minimizar a situação. E garante que, ao fim de 2016, a inflação estará no centro da meta, de 4,5%, coisa nunca vista no governo Dilma. “Nossas estimativas acompanham a conjuntura do momento”, justifica ele, sem grande convicção. O dado oficial do BC, por sinal, mostra inflação de 5% no encerramento do segundo ano do novo mandato da petista.

Para Zeina Latif, economista-chefe da XP Investimentos, não há espaço para ilusões. “Não vai ter jeito. Em 2015, mesmo que imaginemos o melhor dos mundos na política fiscal, teremos inflação alta, juros subindo, crédito caro e baixo crescimento”, prevê. O jeito, destaca, será torcer para que o governo reconstrua a credibilidade da política econômica, para que o Brasil possa ter um 2016 melhor. “Por hora, o que temos é um cenário tremendamente desafiador”, reforça.

ANGÚSTIA A família de Conceição Vaz do Santos, de 25 anos, está apreensiva. Não sabe se, neste segundo mandato, Dilma conseguirá arrumar a casa, como se espera de uma governante comprometida com o bem-estar da população. “A cada ida ao supermercado, a angústia só aumenta. Leite, feijão, carne, arroz, pão. Tudo está mais caro. Posso dar uma lista imensa de coisas cujos preços aumentaram”, diz. A situação financeira complicou tanto, que o filho Miguel, de 2, ficou sem presente de Natal no último dia 25. Faltou dinheiro. “Não houve condições. Tivemos que definir prioridades e fazer renúncias”, lamenta.

O marido da jovem passou em concurso público e aguarda a nomeação. A estabilidade do funcionalismo nunca foi tão desejada pela família. “Antes, só ouvia meus pais falarem sobre inflação e não entendia nada. Hoje, estou sentindo na pele e no bolso”, afirma Conceição. Em um período como o atual, ela sabe a importância de poupar. Mas não consegue. “O salário cai na conta e, no dia seguinte, some”, ressalta. Se o dinheiro não sobra, para proteger a família a dona de casa pensa em recorrer aos estoques de produtos não perecíveis, postura comum nos tempos de hiperinflação. “Vamos ver o que será de 2015 e o que Dilma fará”, acrescenta.

A hiperinflação, por sinal, continua alimentando uma praga resistente: a indexação da economia, que dificulta o controle dos preços no país. Cerca de 30% dos produtos e serviços que compõem o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) são corrigidos pela inflação passada. Esse problema, em algum momento, terá de ser atacado. “Mas, primeiro, o governo precisa derrubar a inflação. Essa é a prioridade do momento”, insiste Zeina Latif.