Por: Dany Starling

Eu ainda estou meio embasbacado com a demissão do Trajano na ESPN Brasil.

Não apenas porque o sujeito foi o grande responsável pela criação do canal e por ter dedicado 21 anos de sua vida a ele. Isso acontece, infelizmente, no meio corporativo. Mas, principalmente, pela falta que o Trajano vai fazer.

Com a saída de Trajano, a ESPN Brasil se aproxima, cada vez mais, de se tornar um canal de mero entretenimento. Pouco jornalismo e muito oba-oba. Pouco conteúdo em troca de umas migalhas na audiência. Pouca investigação e muita gracinha. Linguagem jovem, desinteressada, despojada. Não demora e aparece algum apresentador com boné de aba reta. Malandramente…

Ainda na faculdade, eu tomava muita porrada quando dizia que não existe jornalismo esportivo. Que os veículos de comunicação tratam o esporte como mero entretenimento. A ESPN era um dos últimos bastiões onde a informação era levada a sério. Era. Preferiu o caminho da mesmice. Antes ditada pelos canais abertos. Hoje, pautada pelos youtubers.

É triste. Eu me aproximei do jornalismo lendo os cadernos de esporte do Estado de Minas e do Diário da Tarde, aí por volta de 1990. Depois, descobri a Placar. Festejei o nascimento do Lance e a chegada dos canais a cabo. Era fã de carteirinha da ESPN. Adorava o Pontapé Inicial, que mesclava jornalismo, futebol e música. O Linha de Passe com PVC, Milton Leite, Paulo César Vasconcellos, Trajano e Carsughi era imperdível. Depois, com Fernando Calazans (que eu acompanhava no Globo), Juca e Márcio Guedes.

É triste pensar que a imprensa não leva o esporte a sério. O trata com frivolidade. Os jornais e os portais repetem as mesmas informações, as TVs perdem tempo com inúmeros e exaustivos programas de pitacos, onde a mais desinteressante das coletivas de imprensa é tratada a toque de “parem as máquinas”. Não existe reportagem. Não existe furo. Não existe informação de qualidade. É uma pobreza de dar dó. Os jornalistas, de maneira torpe, se aproximam dos atletas, técnicos e dirigentes visando interesse próprio. Uma camisa, um lugar nos “vôos da alegria”, uma entrada para a festa de final de ano. Um brinde. Um espelhinho. A relação é de escambo e subserviência.

Torço para que isso mude. Que, um dia, público pare de se contentar com os Netos, os Canalhas, os Lélios, os Leiferts, os Denílsons, os Milton Neves da vida. E passem a exigir mais estofo, mais preparo, mais interesse. Mais jornalismo. Por novos Zé Trajano, Juca Kfouri, PVC, Calçade, Mário Marra, Celso Unzelte, Helvídio Mattos, Lédio Carmona, Maurício Noriega. Até o Mauro César, ranzinza que dói, mas um caboclo sério.

Texto escrito pelo jornalista: Dany Starling (odanystarling@gmail.com)