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Mario Sergio Cortella diz  que nós não somos comandados por forças dentro de nós, sobre as quais a gente não possa raciocinar, refletir e decidir, por isso, tudo está sempre ligado a escolha. 

*Por Allan Alves
Foto: Gigi Kassis
Da Revista RH Online

Mario Sergio Cortella é filósofo e escritor, com mestrado e doutorado em Educação. Na juventude, experimentou a vida monástica em um convento da Ordem Carmelitana Descalça. Durante três anos, aprendeu a viver em comunidade, a não ter propriedades, a guardar silêncio. Abandonou a perspectiva de ser monge – mas não a espiritualidade – para seguir a carreira acadêmica. Cortella é professor há 40 anos, foi Secretário Municipal de Educação de São Paulo, onde trabalhou ao lado de Paulo Freire, uma das figuras mais importantes da educação brasileira. Conferencista em instituições públicas, empresas e ONGs, comentarista em vários órgãos da mídia e autor de mais de 15 livros, que prefere chamar de “provocações filosóficas”.

Na conversa a seguir, ele destaca que a “nossa liberdade não é soberana, ela é autônoma. Há uma diferença entre soberania e autonomia” e chama a atenção de que a “angústia é uma forma que nos leva a ter que pensar melhor”.

 

Revista RH Online – Escutamos muito a expressão “falta de ética” como se fosse um comportamento alheio. Qual o significado de ética? O que é ética?

Cortella – Ética é um conjunto de valores e princípios que você usa pra decidir a tua conduta social, isto é, são os valores que a pessoa adota para ver como ela se comporta na comunidade, por isso ninguém não tem valores, eles podem ser valores positivos e negativos. Quando a gente fala de “falta de ética”, nós estamos nos referindo a uma falta de ética saudável, mas todas as pessoas, sem exceção, exceto aquelas que são privadas de raciocínio, aquelas que não podem decidir por si mesmas, todas as pessoas tem alguma ética, pode ser uma ética até que você e eu não queiramos, mas todo mundo tem valores, todo mundo tem princípios pra decidir a própria conduta, insito, podem ser valores positivos na comunidade, como podem ser valores negativos.

RRHO – Qual a diferença entre moral e ética? Poderia dar um exemplo?

Cortella – Ética é um conjunto de princípios, moral é a pratica. Por exemplo, ética é a tua concepção sobre a tua conduta, enquanto que moral é a prática desta conduta. Por exemplo, eu tenho um princípio ético o que não é meu, isso é princípio.

Por exemplo: estou eu saindo de uma sala e há ali um celular sobre a mesa que não me pertence, eu vou ter algum ato moral, ou eu devolvo, ou eu levo comigo de maneira ilegal.

A moral é sempre a prática individual, a ética é uma concepção coletiva, enquanto que a moral é a prática individual dos teus valores.

RRHO – Muitas empresas utilizam em seus valores organizacionais a expressão FOCO NO RESULTADO. Qual a ilusão moral do FOCO NO RESULTADO?

Cortella – Se você entender que o resultado é decente, se não for um resultado que resulta num lucro que seja manchado, se ele tiver com intenção algo que seja não imoral, sem dúvida, pode sê-la. Quando uma empresa usa a expressão foco no resultado em dizer “fazemos qualquer negócio”, isto é, inclusive aquilo que não deve ser feito. Este tipo de lógica de foco no resultado a qualquer custo, ele é de uma ética que apodrece os valores da convivência, por isso, foco sim no resultado, mas não a qualquer custo, nem a qualquer preço.

Há situações que precisam ser evitadas que resultado algum torna justo, ou seja, que se justifica.

RRHO – Ética é por que há liberdade, ou seja, somos portadores de liberdade. Qual o cuidado devemos tomar diante desta liberdade?

Cortella – Nossa liberdade não é soberana, ela é autônoma. Há uma diferença entre soberania e autonomia. A pessoa soberana faz o que quer. independentemente das outras pessoas existirem, a pessoa autônoma faz o que quer no limite das fronteiras que tem com outras pessoas.

Portanto, a liberdade é algo que se constrói e precisa ser numa ética saudável no campo das autonomias e não das soberanias.

Toda tentativa de ser soberano numa vida em comunidade é, acima de tudo, uma fratura ética.

RRHO – O mundo é resultado das escolhas que fizemos?

Cortella – Tudo depende sempre das escolhas, é claro que ética é decisão. Nós não somos comandados por forças dentro de nós, sobre as quais a gente não possa raciocinar, refletir e decidir, por isso, tudo está sempre ligado à escolha. Eu costumo lembrar sempre, não é a ocasião que faz o ladrão, a ocasião apenas revela o ladrão, decidir ser ladrão ou não é anterior à ocasião, por isso é sim resultado de escolha.

RRHO – A corrupção é consequência do sistema?

Cortella – A corrupção e consequência de escolhas que são feitas por corruptos e por corruptores. Não há corrupto sem corruptor.

Na parte do setor público que há corrupção, ele é corrompido pelo setor privado, parte do setor privado tem interesse na corrupção para manter os seus negócios ilícitos ou sobre salva em relação à tributação. Por exemplo, no Brasil em 2012 houve 400 bilhões de reais de evasão fiscal, o que é mais do que o gasto em educação durante um ano. Muita gente tem por aí o “impostômetro”, que é uma coisa importante, mas tem que ter o “sonegômetro” também, porque a corrupção em qualquer nível resultada de escolhas.

RRHO – Quais são as referências e princípios que norteiam as nossas ações?

Cortella – Depende, cada pessoa na sua comunidade, no seu tempo, escolhem quais são as referências. Há comunidades que tem como referência a honestidade, a integridade, a humildade, outras nem sempre. Há comunidades em que o valor mais importante é a arrogância, é a capacidade de egoísmo, isso variará de acordo com a comunidade. Não existe ética individual, mas também ainda não existe uma ética universal que tenha qualidade para as pessoas o tempo todo, o que existe é a moral individual, ética individual, não.

RRHO – Martin Heidegger, filósofo alemão e um dos pensadores fundamentais do século XX fez a seguinte afirmativa: A angústia é a possibilidade plena. Como as nossas escolhas e a ética estão presentes nesta afirmativa?

Cortella – Afinal de contas todas as vezes que a gente tem uma perturbação com a nossa normalidade de raciocínio, e a angústia é uma destas formas, ela nos leva a ter que pensar melhor. Quando algum tipo de dilema ético nos conduz à angústia, isto permite que a gente seja capaz de abrir outras possibilidades e não aquela que se tinha antes.

Portanto é uma ocasião para uma mudança para melhor para quem fizer esta escolha.

RRHO – É óbvio dizer que todo ser humano sempre viveu na era contemporânea?

Cortella – Sem dúvida, parece uma obviedade, mas todo ser humano sempre viveu na era contemporânea, mas o modo como cada um vive essa contemporaneidade não é a mesma. As pessoas têm suas relações, suas percepções de um modo diversificado e a contemporaneidade que nós temos hoje uma na qual valores éticos mais coletivos.

RRHO – Existe a possibilidade de não aceitarmos o que por princípios discordamos?

Cortella – Claro, afinal de contas a nossa percepção de liberdade é aquela que admite o sim e o não, desde que eles sejam conscientes. Eu posso recusar aquilo que está fora do meu horizonte de aceitação, tenho que assumir as consequências ao fazê-las, não há escolha sem abdicação, todas as vezes que eu escolho algo, eu estou abdicando de outras coisas.

Portanto, toda escolha é uma seleção, daí dizer sim ou não é também uma seleção, com aquilo que desejo e aquilo que recuso.

RRHO – Qual é a mensagem ou frase que gostaria de deixar para os nossos leitores?

Cortella – Uma frase de Immanuel Kant, um filósofo do século XVIII que dizia: “Tudo que não puder contar como fez, não faça”.

Afinal, se há razões para não contar, essas são as mesmas razões para não fazer.