O inesperado anúncio do presidente Putin de tirar do país a maior parte de seu contingente militar pegou todos de surpresa, num momento em que a guerra entra em seu sexto ano.

Os jihadistas da Frente al-Nusra, o ramo sírio da Al-Qaeda, falaram de “derrota” russsa e anunciaram que vão lançar uma ofensiva neste país nas próximas 48 horas.

Em Genebra, o enviado especial da ONU para a Síria, Stafan de Mistura, considerou que a retirada parcial russa da Síria é um “acontecimento significativo”, que espera que tenha um “impacto positivo” nas negociações de paz em Genebra.

“Este anúncio pelo presidente (Putin) no mesmo dia do início das negociações inter-sírias, é um acontecimento significativo, que esperamos que tenha um impacto positivo nestas negociações em Genebra para alcançar uma solução política ao conflito sírio”, disse De Mistura.

Os militares russos na Síria começaram a recolher os equipamentos e o material em grandes aviões de transporte.

Um primeiro grupo de aeronaves, incluindo aviões de transporte T-154 e bombardeiros Su-34, decolou da base aérea de Hmeimin (noroeste) em direção à Rússia, indicou o ministério da Defesa.

No entanto, o chefe da administração presidencial russa, Sergei Ivanov, advertiu que esta retirada não se aplica aos sistemas de defesa aérea mais modernos implantados na Síria, sem confirmar se tratar das baterias anti-mísseis S-400.

“Manteremos uma proteção eficaz para a parte do contingente que permanecerá na Síria, principalmente os meios de proteção em terra, mar e ar”, disse Ivanov, citado por agências de notícias russas.

“Para garantir a segurança, incluindo aérea, precisamos da tecnologia mais moderna”, acrescentou.

Além disso, o vice-ministro da Defesa russo advertiu que seu país irá continuar a bombardear “alvos terroristas” na Síria. “Ainda é muito cedo para falar de vitória sobre o terrorismo. A missão da força aérea russa é continuar a atingir alvos terroristas”, garantiu Nikolai Pankov da base aérea russa Hmeimim, no noroeste da Síria.

Reações positivas

Tanto o Conselho de Segurança da ONU como o Irã, através de seu ministro das Relações Exteriores, Mohamad Javad Zarif, consideraram positivo o anúncio do Kremlin.

A Casa Branca, por sua vez, indicou que Putin e Barack Obama falaram por telefone sobre a “retirada parcial” das forças russas, embora segundo Josh Earnest, um porta-voz do presidente americano, seja difícil medir o impacto deste anúncio sobre as negociações.

A França também saudou nesta terça a decisão russa, chamando-a de “evolução positiva”. “Tudo o que possa contribuir para a desescalada na Síria deve ser aclamado”, declarou um porta-voz da chancelaria francesa.

Desde 30 de setembro, mais de 50 aviões de combate russos atacaram alvos terroristas e permitiram que o exército do regime, em dificuldades, conquistasse importantes vitórias. No entanto, os ocidentais acusam a Rússia de atacar mais os rebeldes moderados que os jihadistas do Estado Islâmico (EI).

Em Nova York, o embaixador russo na ONU, Vitali Churkin, disse ter recebido instruções de “intensificar os esforços para chegar a uma solução política na Síria”.

E em Genebra, onde estão sendo realizadas negociações indiretas entre as partes em conflito, a oposição síria acolheu a decisão russa com prudência.

Por sua vez, o ministro das Relações Exteriores alemão, Frank-Walter Steinmeier, disse que a retirada da Rússia “aumenta a pressão sobre o regime do presidente Assad para negociar por fim de maneira séria em Genebra a transição política”.

O anúncio de Putin chega poucas horas após o início em Genebra de um novo ciclo de negociações entre os representantes do regime e a fragmentada oposição síria, nas quais a questão central continua sendo o futuro de Bashar al-Assad.

O conflito sírio, que começou em 15 de março de 2011, com protestos pacíficos reprimidos violentamente, tornou-se uma complexa guerra com um grande número de atores locais e internacionais envolvidos.

Desde então, mais de 270.000 pessoas morreram e milhões fugiram de suas casas, provocando, por extensão, uma crise migratória na União Europeia.

AFP