Por Eduardo Person Pardini

O mundo corporativo tem se modificado de forma rápida e constante. Notoriamente tem acompanhado as tendências de negócios, ficando cada vez mais virtual e descentralizado.

Sem dúvida, esta nova dinâmica de mercado torna a empresa mais vulnerável e exposta a riscos cada vez mais complexos, exigindo de sua gestão um elevado grau de comprometimento com as práticas de governança, gerenciamento de riscos e sistema de controles internos.

Por sua vez, a atividade de auditoria interna, seja no setor privado ou público, deve acompanhar estas mudanças, com o risco de ficar obsoleta se não fizer.

Fica cada vez mais evidente a importância da atividade de auditoria interna como ferramenta para o aperfeiçoamento das operações das corporações e no fortalecimento dos atributos de governança.

Entretanto, algumas pesquisas realizadas pelas empresas de auditoria externa, demonstram que a alta gestão tem dúvidas se a auditoria interna esta entregando serviços que realmente adicionem valor para à empresa. Esta percepção esta centrada, basicamente, na forma de atuação, na natureza dos trabalhos de avaliação e na fragilidade dos relatórios e recomendações.

Tenho me deparado, durante alguns projetos junto às auditorias internas tanto no setor público como no privado, com a realização de trabalhos de avaliação muito incipientes, com baixa aderência às normas internacionais de auditoria, gerando resultados, comprometendo o objetivo de adição de valor, do ponto de vista da governança. Logicamente, também encontro, em menor proporção, atividades de auditoria que estão melhores estruturadas e mais aderentes às normas internacionais, mas são exceções.

Para que possa fortalecer as atividades da auditoria interna, alinhando-a às necessidades corporativas, primeiro, precisamos entender em que estágio a atividade se encontra. Depois, podemos elaborar um plano de melhoria e fortalecimento do departamento de auditoria interna.

Em nossa visão, existem três grandes estágios na auditoria interna. A primeira diz respeito aos trabalhos de avaliação de conformidade, a segunda onda esta voltada à avaliação do processo de gerenciamento de riscos e controles internos, e a terceira onda a avaliação da gestão e estratégia, como demonstrada pela figura abaixo:

No primeiro estágio, os trabalhos de auditoria estão voltados à avaliação de conformidade e/ou regularidades. Sua análise se baseia em um paradigma que pode ser uma lei, norma ou regulamento, onde o resultado será sempre binário, isto é: esta ou não esta em conformidade. O auditor deve ter um amplo conhecimento de todos os paradigmas que impactam as transações avaliadas. A amostragem para seleção dos testes tem grande tendência de ser, através da aplicação do princípio de Pareto 20/80, por materialidade de valor.

O segundo estágio, além as atividades de conformidades, são também realizados trabalhos de avaliação operacional. Os projetos são definidos com base em uma leitura de riscos corporativos, onde são avaliados o gerenciamento dos riscos e o sistema de controles internos em um ciclo de negócio, processo operacional ou segmento de transação. O auditor deve ter uma boa visão da dinâmica da operação avaliada e dos riscos associados. Os testes serão baseados em uma amostra selecionada através da metodologia de amostragem estatística e sua extração realizada de forma aleatória.

A auditoria interna do 3º estágio, além das atividades de conformidades e de auditoria operacional, passam a avaliar as ações de gestão, bem como seu desempenho em atingir os resultados previamente determinados, inclusive avaliando se os objetivos estratégicos definidos estão alinhados à missão e com os desejos dos acionistas. Nesta fase, a questão não é se o recurso foi aplicado em conformidade ao planejado, mas sim, se foi bem utilizado. Avaliamos a efetividade da gestão na criação de valor às partes relacionadas. Por exemplo, no setor público, vamos avaliar se a construção de um viaduto foi mais adequada do que a construção de uma unidade de saúde.

Normalmente, nos projetos de alinhamento dos departamentos de auditoria, utilizamos o quadro de características de cada estágio para identificar onde, nesta curva, o departamento se encontra. Este diagnóstico utiliza outras ferramentas, mas em tese, este é o inicio do processo.

A grande maioria dos executivos não entende e nem conhece o real valor que a auditoria pode trazer para sua operação, de forma que alguns somente se lembram da auditoria quando da ocorrência de um problema ou uma irregularidade.

Uma auditoria alinhada, aderente às melhores práticas, proativa, com visão de negócios tem muito a oferecer para a empresa e podemos afirmar que se não for assim, todo o processo de governança corporativa fica enfraquecido.

Para isto é crucial que os recursos necessários sejam disponibilizados para auditoria, seja na capacitação, nas ferramentas e na senioridade do departamento, além é lógico, do comprometimento da alta gestão com a ética e com as melhores práticas de gestão.

Eduardo Person Pardini – Sócio principal, responsável pelos projetos de governança, gestão de riscos, controles internos e auditoria interna da Crossover Consulting & Auditing. É diretor executivo do Internal Control institute – chapter Brasil, palestrante e instrutor do IIA Brasil.