Os recentes casos de racismo no futebol divulgados pela imprensa demonstram que mesmo após 126 anos da Abolição Escravatura ainda vivemos em mundo que não respeita as diferenças raciais
Rosangela
Rosangela Silva: “A educação ainda é a chave para
um Brasil sem racismo”
(Foto: Divulgação)
*Jornalista
Felipe José de Jesus ))

O volante Tinga, do Cruzeiro, o árbitro Márcio Chagas e o jogador Daniel Alves, da Seleção Brasileira, foram apenas alguns dos famosos que sofreram preconceito por causa da cor da pele. Porém, além do campo de futebol, onde se tem uma visibilidade mundial, outros casos ocorrem diariamente no Brasil e em outros países.

Em entrevista, a coordenadora de Promoção da Igualdade Racial da Secretaria Municipal Adjunta de Direitos de Cidadania da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte (PBH), Rosângela da Silva, afirma que os casos estão tendo mais repercussão por causa da imprensa, no entanto, ela diz que a impunidade e a falta de educação ainda pesam. “O racismo não pode mais ser encarado como um fator econômico isolado. A imprensa ajuda, entretanto é preciso compartilhar conhecimentos, divulgar a legislação e formar gradualmente o cidadão, seja ele branco negro ou de qualquer outra etnia”.

Como você vê as recentes manifestações de racismo contra jogadores de futebol?

Os atuais casos de racismo denunciados e notificados pela imprensa abriram espaço para se colocar em pauta questões raciais históricas em nosso país. A movimentação das torcidas em apoio aos jogadores demonstraram indignação e solidariedade pelo fim desse preconceito. As vozes de muitos que alegavam que em função da diversidade étnica no país, o racismo era inexistente perderam eco. Esse problema não pode mais ser encarado simplesmente como um fator econômico isolado.

Você acredita que combate ao racismo tem trazido resultados?

Mais ou menos. O Estatuto da Igualdade Racial tramitou durante 10 anos na Câmara dos Deputados até ser aprovado em 2010. Hoje, quase 4 anos depois de sua vigência, a maioria da população brasileira o desconhece. A revisão do Estatuto do Índio ainda caminha a passos lentos no Congresso Nacional, o que inviabiliza políticas públicas para os indígenas não aldeados. O mito e o racismo sobre a população cigana permanecem impossibilitando o acesso desta população aos direitos básicos de moradia e outros direitos fundamentais. As cotas que tratam da imagem do negro nos comerciais são cumpridas à risca, não ultrapassando o percentual apontado em lei. A política de promoção da igualdade racial é transversal e intersetorial e não se resume exclusivamente ao órgão responsável pela sua elaboração.

Como esse ataque de racismo afeta os brasileiros negros?

Diretamente, mesmo porque temos que reconhecer que ainda há muito a ser realizado. Deste modo, se torna imprescindível empenhar esforços na proposição de novas políticas públicas voltadas para a ampliação e consolidação das conquistas já obtidas. O enfrentamento às desigualdades etnicorraciais mostra-se, hoje, como um campo pungente, mesmo estando amparado na aprovação de legislações específicas.

Mesmo sendo vítimas de discriminação, seja no esporte ou em outras esferas, por que os brasileiros têm atitudes preconceituosas?

Os gargalos para um Brasil sem racismo são muitos. É preciso compartilhar conhecimentos, divulgar a legislação e formar gradualmente o cidadão, seja ele branco, negro ou de qualquer outra etnia. Compreender que o processo histórico de exclusão gerou também negação e vários outros conflitos que não podem ser combatidos com intolerância. A educação ainda é a chave para um Brasil sem racismo.

Quais políticas públicas de combate ao racismo vêm sendo desempenhadas pela coordenadoria em Belo Horizonte?

A coordenadoria vem investindo na implantação de programas como o de certificação em promoção da igualdade racial, que visa à diminuição das diferenças no mercado de trabalho e parcerias para o enfrentamento ao racismo. Além disso, a Prefeitura Municipal de Belo Horizonte por meio da Secretaria Municipal de Educação vem se empenhando na formação de professores para educação étnica racial e diversidade.

Sem o interesse da população é possível desempenhar esses trabalhos contra o racismo?

Não. A formulação de políticas públicas só acontece com a participação cidadã. Políticas assertivas de combate ao racismo e promoção da igualdade racial só podem ser efetivadas e ganhar vez a partir da união de vários esforços com todos os setores da sociedade. As bandeiras levantadas precisam se unir para que possamos construir de fato uma sociedade sem racismo.