“Ou a Previdência Social tem de ser reformulada ou então todos os pensionistas sofrerão.”

A frase foi do presidente interino Michel em entrevista ao jornalista Kennedy Alencar. E isso tem nome: chantagem. Do tipo: “ou liberam o que quero ou consigo um jeito de atrapalhar ainda mais a sua vida”.

O governo do PT fez bastante isso também na área ambiental. Por exemplo, em 2007, o então ministro das Minas e Energia, Silas Rondeau, disse que ou o licenciamento ambiental das hidrelétricas do rio Madeira (Santo Antônio e Jirau) saía ou o governo começaria a procurar outras fontes de energia sujas como a térmica ou nuclear.

O interessante é que Rondeau não escolheu a energia eólica, a solar ou a proveniente da biomassa como opções, o que mostra o padrão de desenvolvimento predatório que reinava no governo Lula. Mas também mostra como são estruturadas essas chantagem de “ou isso, ou aquilo”, no qual escolhe-se um futuro sombrio feito uma maldição que irá se concretizar se não aceitarmos a luz entregue pelos iluminados governantes.

Temos mais opções para além do maniqueísmo e da dualidade rasos. Sempre. Mas querem nos fazer crer que não.

Da mesma forma, Michel não optou por essa formulação de frase:

“Ou a Previdência Social é reformulada ou então lucros e dividendos voltarão a ser taxados.”

Mas Michel, provavelmente, nunca falaria isso porque ataca diretamente a classe social daqueles que ele parece representar.

Como já disse aqui, acho que a Previdência Social deve passar por mudanças, claro. O Brasil está mais velho e isso deve ser levado em consideração para os que, agora, ingressam no mercado de trabalho. Mas aumentar a idade mínima pura e simplesmente, ignorando que há trabalhadores braçais que começaram a trabalhar muito cedo e, exauridos de sua força, nem bem chegam vivos aos 65 anos, é delinquência social.

Há variações de chantagem aparecendo na boca de ministros, conselheiros ou parlamentares da base de apoio.

Por exemplo: Ou a CLT é alterada ou então o Brasil não conseguirá gerar empregos.

Que bem poderia ser: Ou a CLT é alterada ou então teremos que fazer uma ação firme para combater a sonegação de empresas, que representam dezenas de bilhões em prejuízos aos cofres públicos.

Outro exemplo: Ou cortamos recursos para educação e saúde ou o Brasil vai parar.

Que bem poderia ser: Ou cortamos recursos para educação e saúde ou implantamos impostos sobre grandes fortunas, grandes heranças e aplicamos uma alíquota nova no imposto de renda, de 40%, sobre a alta renda dos muito abastados.

A beleza de uma democracia é que, nela, os caminhos deveriam ser discutidos abertamente e as decisões tomadas coletivamente. E se há um buraco a ser coberto, que ele seja socializado – com os mais vulneráveis pagando menos o pato do que os mais protegidos.

Como não há dinheiro em caixa, está sendo dado ao povo uma escolha: ou aceita a revisão de seus direitos, diminuindo seu alcance e efetividade, ou fica sem nada. Isso pode ser tudo, mas está longe do que se espera de uma democracia.

O problema é que o “autoritarismo” é como uma “chantagem”: ambos podem ser lustrados com óleo de peroba para perder o jeito opaco, a dureza e a asperez. Mas não perdem sua natureza.

Leonardo Sakamoto