Mérito do Moro, que resolveu ser um Pedro Simon consequente, e azar do PT, que foi se meter na farra dos compadres justamente quando chegou a polícia

O inédito espetáculo de empresários graúdos como Marcelo Odebrecht sendo condenados à prisão tem dois significados colaterais, um retroativo — o reconhecimento tardio da razão que tinha o senador Pedro Simon quando lutava sozinho, em Brasília, para que se punissem os corruptores junto com os corruptos — e o outro uma condenação, também tardia, do capitalismo à brasileira. Simon queria acabar com uma anomalia, a corrupção sem corruptores, ou a corrupção com um lado só. Não teve apoio e sucesso porque sua ideia contrariava hábitos nacionais que vinham desde que o Cabral botou o pé na praia, certamente antes de existir o PT. Nosso capitalismo de compadres foi sempre feito de conluios e cartéis, licitações arranjadas, favores comprados e outros vícios do compadrio. (Nunca é demais lembrar as imortais palavras do Rubens Ricupero quando não sabia que o microfone estava aberto: “É tudo bandido”) Mérito do Moro, que resolveu ser um Pedro Simon consequente, e azar do PT, que foi se meter na farra dos compadres justamente quando chegou a polícia. Se o objetivo da Operação Lava-Jato é moralizar os costumes empresariais do país ou pegar o Lula de qualquer jeito, não interessa. O fato é que, no processo, ela nos proporciona este exemplo quase eucarístico de transfiguração. O que era usual virou pecado. O sonho de Pedro Simon se realiza.

Sobre a hipótese de toda essa produção ser só para pegar o Lula e inviabilizar sua candidatura em 2018, recomenda-se a leitura da coluna do Janio de Freitas na “Folha de S.Paulo” desta quinta. Escreve o colunista que, num país sério, as circunstâncias da ida coercitiva do Lula a Congonhas, os vazamentos da operação, o suposto avião pronto para levar Lula para a prisão etc. estariam sendo investigados, restando a pergunta “por quem?” Janio de Freitas também se refere ao fato de um dos delegados na operação Congonhas ser um dos citados numa reportagem de “O Estado de S.Paulo”, publicada no início da Lava-Jato, sobre a troca de e-mails entre delegados contendo insultos a Dilma e Lula e elogios ao Aécio. Uma matéria da qual, como tantas outras nestes tempos misteriosos, nunca mais se falou.

Fonte: O Globo