por: Isabelle Anchieta

Para além do alarde negativo da eleição de Trump é preciso ter a sensibilidade de compreender os novos rumos do processo social em curso na América. Trump apenas o confirma. Antes dele, Maurício Macri na Argentina e entre nós, no Brasil, as prefeituras de duas importantes cidades como SP e Belo Horizonte com João Doria e Kalil são sintomas de uma nova aposta social. Assim mais do que pontualizar a análise na suposta xenofobia, machismo e falas desastrosas de cada lado é preciso ampliar o foco. Entender esse (quase) misterioso mecanismo social que parece sintonizar as novas demandas de pessoas que vivem realidades tão distintas.

Para elucidar essa incógnita me parece interessante observar as recorrências. E a mais significativa delas é a aposta nos anti-políticos. Os “outsiders”. Aqueles que não estão dentro do campo e dos vícios de seu sistema, mas que, por outro lado, possuem experiência administrativa bem-sucedida na condução de grandes empresas e instituições. Fato que lhes garante também certa isenção moral, pensam: “é rico e, portanto, não entrará para a política para roubar o dinheiro público, mas sim por um compromisso genuíno com acertar o caminho”.

Há uma nova sensibilidade social com relação à corrupção e um pragmatismo na escolha dos novos dirigentes, motivada claramente pela exaustão com a chamada velha política. É sobretudo uma aposta na renovação das práticas. Por isso, a sinceridade, ainda que “politicamente incorreta” soa como boa música a ouvidos cansados de ideologias e hipocrisias. E, por mais difícil que pareça ser, Trump representou mais esse novo caminho do que Hillary.

No entanto tal pragmatismo não parece por outro lado se travestir em uma direita (insensível) tal qual a estereotipamos. Há claramente uma absorção da agenda da chamada esquerda. O que implica no compromisso de manter programas sociais e mesmo ampliá-los. Nesse sentido a escolha de Trump não pode ser lida simplesmente com um mero erro de percurso, mas uma escolha meditada (e não admitida) pelos americanos. Trump não se elegeu com o voto da “burguesia branca” como se quer crer. Mas com o voto dos latinos (que estão legais no país e querem uma reserva do mercado de trabalho) e mesmo das mulheres e dos negros. Não nos enganemos!

É importante indagar em que medida sua eleição é mesmo um passo para trás, ou fruto da compreensão dos eleitores de que o discurso progressista não deu o esperado passo para frente? Em que medida a globalização conseguiu humanizar as relações entre culturas e povos?

Por isso me parece precipitado chamar o eleitor de “Trump” de idiota. Seria compreender parcialmente o seu lugar no novo desenho demandado pela sociedade americana e latino-americana. É uma aposta e só mais adiante saberemos quão benéfica será (ou não).
#TRUMP #ELEIÇÕESEUA

Isabelle Anchieta
Doutora em Sociologia pela USP, prof(a) da PUC, recebeu prêmio internacional pela ISA/UNESCO como Jovem Socióloga e distinção acadêmica pela USP. Facebook: Isabelle Anchieta (figura pública). Email: isabelleanchieta@gmail.com