Falhas no sistema de drenagem, obra de recuo sem planejamento e aumento contínuo da estrutura mesmo com problemas graves no barramento. As polícias Civil e Federal já haviam apontado esses fatores como as causas do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, na região Central de Minas Gerais. Agora, é a empresa contratada pela Samarco, pela Vale e pela BHP Billiton, responsáveis pelo desastre, que confirma esses eventos como precursores da liquefação dos rejeitos, que matou 19 pessoas e destruiu distritos e rios, há quase dez meses.

“O primeiro incidente ocorreu em 2009. Devido a defeitos de construção no dreno de fundo, a barragem foi tão danificada que o conceito original não poderia mais ser implementado”, introduz o relatório da empresa de advocacia internacional Cleary Gottlieb Steen & Hamilton LLP, que fez a investigação independente. O diretores das três mineradoras estiveram presentes na reunião de apresentação do documento, mas nada falaram sobre o assunto.

As falhas construtivas e operacionais na barragem – apontadas, nesta segunda-feira (29), pelo líder dos especialistas da Cleary, o engenheiro civil canadense Nobert Morgenstern, por meio de videoconferência – continuaram a ocorrer em 2010, 2011, 2012, 2013 e 2014, culminando no desastre em 2015. “No fim de 2012, uma galeria de concreto sob a ombreira esquerda da barragem foi considerada estruturalmente deficiente e incapaz de suportar mais carga”, descreve a investigação. O documento explica, ainda, que, para manter as operações, naquele período, o alinhamento da barragem foi recuado da sua posição, sem planejamento, e colocado o maciço de rejeitos diretamente em cima de lamas depositadas anteriormente.

“Dessa forma, todas as condições necessárias para o desencandeamento do processo de liquefação (rompimento) estavam presentes”, conclui o relatório, mostrando que, já em 2012, o risco era previsto. No entanto, o alteamento da barragem continuava, mesmo após o aparecimento de trincas. Segundo a investigação independente, o tapete drenante substituto, destinado, a controlar a situação chegou a sua capacidade máxima em agosto de 2014, 14 meses antes da tragédia.

Tremores. Um dos únicos pontos que o documento acrescenta em relação à investigação policial são os três abalos sísmicos que ocorreram antes do rompimento e que teriam sido o gatilho de algo que já estava em estágio avançado.

“A presença da lama foi fundamental, o tremor foi muito pequeno”, indicou Nobert Morgenstern em uma das poucas perguntas que conseguiu responder aos jornalistas presentes na apresentação do relatório. Na maioria das questões elaboradas, o canadense dizia se limitar as causas investigadas, e, por vezes, indicava a leitura do documento completo disponibilizado – por ora apenas em inglês – no site fundaoinvestigation.com.

Frase:
“Devido ao processo de carregamento contínuo, as lamas foram comprimidas. Ao mesmo tempo, também se deformaram lateralmente, sendo espremidas para fora como pasta de dente saindo de um tubo, em um processo conhecido como extrusão lateral” (Trecho do resumo executivo da Investigação da Barragem de Fundão)

Movimentação seria imperceptível
Mesmo apresentando diversas falhas grosseiras no decorrer dos últimos sete anos na barragem de Fundão, o engenheiro civil canadense Nobert Morgenstern, de certa forma, tenta minimizar o desastre ao afirmar que a movimentação dos rejeitos não teria como ser detectada a olho nú nem por equipamentos comuns. “Apenas por instrumentos específicos, que não são utilizados de forma rotineira em monitoramentos de barragens”, disse.

Questionado ainda sobre a leitura dos piezômetros (medidores de pressões da barragem), os quais, segundo a polícia, não estavam funcionando antes da tragédia, Morgenstern não esclareceu, mas informou que eles estavam adequados e que apenas algumas análises de superfície não foram identificadas por causa de ruídos. O especialista não respondeu sobre prevenções possíveis e comparações com outros cenários.

Saiba mais

Currículo. A empresa Cleary foi escolhida por ter experiência em investigações complexas, constituindo um painel de especialistas em geotecnia, que já investigaram casos semelhantes em outros países.

Métodos. Para realizar a investigação, a Cleary diz que utilizou observações de “testemunhas oculares”, evidências coletadas no campo e testes de laboratórios avançados.

Perguntas.O trabalho investigativo se deu em torno de três perguntas: por que aconteceu um fluxo fluido de rejeitos?; por que ele ocorreu onde ocorreu?; e por que ocorreu no momento em que ocorreu?

Desculpas. Os três diretores das mineradoras presentes na reunião não falaram com a imprensa e se limitaram a pedir desculpas aos envolvidos na tragédia.

Resposta. A Samarco informou que colaborou com a investigação e só agora teve acesso às conclusões. “Trata-se de um trabalho técnico complexo e detalhado, que será estudado para que comentários possam ser feitos”.

Conclusões da investigação independente contratada pelas mineradoras Samarco, Vale e BHP Billiton
A empresa de advocacia internacional Cleary Gottlieb & Hamilton, concluiu que o rompimento da barragem de Fundão provocado por liquefação foi consequência de uma cadeia de eventos não planejados desde 2009.

São eles:
-Alterações no projeto, lamas depositadas em áreas não previstas na ombreira esquerda da barragem, recuo do alinhamento do maciço da sua localização originalmente planejada.
-Lamas abaixo desse maciço foram pressionadas por processos de alteamento (aumento das paredes da estrutura para receber mais rejeitos) e se iniciou um mecanismo de extrusão das lamas e dragagem das areias que estavam na parte alta.
-Pequenos abalos sísmicos ocorridos 90 minutos antes do rompimento aceleraram o processo de liquefação e fluxo de rejeitos que já estava bastante avançado.