Moradores do bairro Mangabeiras, na região Sul de Belo Horizonte, e também de outras partes da cidade se reuniram neste sábado (20) em uma caminhada em prol da preservação do parque das Mangabeiras, área conhecida como “pulmão” da capital.

A principal crítica dos cerca de 300 participantes é o uso privado desse espaço público, além da realização de grandes eventos no local. “Antigamente, havia eventos culturais que não agrediam a natureza. Mas semana passada, por exemplo, teve um evento cuja entrada custava R$ 140. Será que este espaço, que é público, está sendo usado adequadamente, desse jeito?”, questiona Isabelle Utsch, membro do movimento SOS Parques e uma das organizadoras da caminhada.

Esses grandes eventos, segundo ela e os demais manifestantes, está restringindo o acesso dos visitantes ao local. “Amanhã deveria ter uma visita de um grupo escolar ao parque. Mas eles não virão mais, porque não há espaço para eles no estacionamento. O que está acontecendo é um abuso de poder contra os usuários do parque, contra os cidadãos, contra todo mundo. A administração pública está restringindo o acesso das pessoas ao parque, e isso é crime”, critica ela.

Outro problema é apontado: o fato de o dinheiro arrecadado com os grandes eventos não ir para melhorias do próprio espaço. “Se você olhar em volta, vai ver que nenhuma melhoria foi feita. O correto seria haver alguma contrapartida para o parque, mas isso não acontece”, diz Isabelle.

O atual uso do parque das Mangabeiras incomoda os frequentadores assíduos. “A gente vem aqui para meditar, para caminhar, ter contato com a natureza. Chega aqui, e tem uma barulhada. O barulho dos shows afasta os animais e interfere em todo este ambiente”, reclama a ceramista Vânia Peres, 70, que diz ir ao parque todos os dias fazer suas caminhadas. Ela também critica os cortes de árvores para liberação de espaços e a privatização de partes do parque, como o estacionamento.

Foi o incômodo com a situação que a levou a se envolver com o assunto e participar do evento de ontem. “Todo mundo que frequenta está tentando fazer alguma coisa”, diz. Além da caminhada, os participantes ainda fizeram um mutirão de limpeza do parque das Mangabeiras e um abraço simbólico ao parque das Águas.

“Aqui é um dos poucos lugares na cidade com animais, árvores, cachoeira. Atualmente, o mundo não tem essa consciência de preservação do meio ambiente. Precisamos proteger este lugar”, constatou a professora de yoga Érica Albuquerque, 43, que costuma ir ao parque para caminhar, andar de bicicleta e aproveitar a cachoeira.

Causa é comum a todas as regiões

A crítica à privatização e à má conservação dos espaços públicos de Belo Horizonte é uma causa que reúne moradores de todas as regiões. Ontem, apesar de a caminhada ter acontecido no parque das Mangabeiras, na região Sul, o evento contou com representantes de vários outros parques e espaços naturais da cidade.

Representantes das matas do Planalto, na região Norte, e do Jardim América, na região Oeste, do parque Professor Amílcar Vianna Martins, no bairro Cruzeiro, na região Centro-Sul e de outros espaços verdes também estiveram presentes endossando a causa.

“Temos recebido grandes reclamações temos presenciado falta de preservação, manutenção falta de cuidados com esses parques, e a população acaba não podendo se apoderar dos espaços públicos. Com essa mudança de foco de projeto de governo, de querer privatizar basicamente tudo, nós estamos enfrentando essa questão do não cuidado com o meio ambiente”, critica o presidente da Associação de Moradores de Belo Horizonte (MAMBH).

Para ele, o uso desses espaços para atividades econômicas de grande porte traz um prejuízo à qualidade de vida da população como um todo. “As pessoas acabam não conseguindo se desestressar”, diz.

Resposta

Confira a nota da prefeitura sobre o assunto:

A Fundação de Parques Municipais (FMP) esclarece que todo evento de médio e de grande porte realizado por terceiros nos parques da cidade passa por avaliação de interesse da FPM, sendo priorizados aqueles que tenham como enfoque o meio ambiente, educação, cultura, lazer e esporte. Todos esses eventos passam por licenciamento ambiental na FPM e na regional a que o parque pertence.

Para cumprir os requisitos obrigatórios, o produtor do evento deve encaminhar para avaliação da FPM o projeto do evento, informando local, data, horário de montagem e desmontagem, estrutura operacional necessária, estimativa de público, atividades que serão realizadas, finalidades do evento, entre outras informações.

Após o parecer favorável da FPM, que inclui a análise de lotação máxima (varia em função da estrutura prevista para o evento), o produtor deve enviar toda a documentação para o licenciamento (que inclui os responsáveis técnicos por cada estrutura), cópia de comunicação à Polícia Militar solicitando o policiamento para o evento, cópia de comunicação de realização do evento à Fundação Hospitalar de Minas Gerais e à Secretaria Municipal de Saúde, laudo técnico de segurança, acompanhado de anotação de responsabilidade técnica devidamente assinada, Documento Operacional de Trânsito (DOT) aprovado pela BHTrans e cópia da comunicação ao Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais sobre a realização do evento.

Os produtores dos eventos assinam, ainda, termo de compromisso de limpeza, segurança, manutenção e conservação do espaço, comprometendo-se a não ultrapassar os limites físicos do espaço cedido e não exceder o público previsto estimado, entre outras obrigações prevista no regulamento, que incluem prestar socorro em clínica especializada à qualquer espécie de fauna que porventura possa ser ferida pelo evento.