*POR BLOOMBERG NEWS
SANTIAGO – Com o aumento dos preços do chocolate, um ex-banqueiro do Credit Suisse Group quer ajudar a reativar o cultivo de cacau na bacia amazônica, local onde supostamente os grãos se originaram há cerca de 15 mil anos.

Sua campanha, localizada no Peru, é parte de uma iniciativa latino-americana para conquistar um controle maior do setor que atualmente é dominado por produtores da África Ocidental, responsáveis por 70% do mercado. A iniciativa surge num momento em que seca, doenças endêmicas e os controles de preços pelos governos reduziram a capacidade dos produtores africanos de atender à demanda, o que elevou os preços em 7,4% em 2014.

A América Latina, onde cientistas acreditam que o cacau se originou, volta ao mapa da produção. O doce era considerado pelos Astecas como a bebida dos deuses e acabou sendo levado à Europa pelos colonizadores espanhóis. Agora, o ex-banqueiro Dennis Melka decidiu apoiar a iniciativa promovida por Brasil, Equador e Colômbia para que o produto volte às suas raízes.

Agricultor corta um feijão de cacau em uma plantação em Atanquez, na Colômbia. Setor aposta na volta à Amazônia ao grupo de produtores mundiais – Mariana Greif Etchebehere / Bloomberg/21-9-2014

— O mercado está crescendo mais rapidamente do que a capacidade da África para atendê-lo — disse Melka, diretor-executivo e fundador da United Cacao, com sede nas Ilhas Cayman. — É uma excelente oportunidade para fornecer e mudar o setor confeiteiro.

Melka, que deixou o Credit Suisse em 2005, era diretor da cobertura do banco para mercados emergentes, com foco no Sudeste Asiático. Ele fundou a Asian Plantations, que produz azeite de dendê na Malásia. Posteriormente passou a cultivar dendezeiros e outras espécies tropicais na América do Sul, onde as terras não são tão caras.

CULTIVO TEMPERAMENTAL

Em novembro, ele vendeu a Asian Plantations em um acordo cotado em 188 milhões de libras (US$ 286 milhões), de acordo com dados compilados pela Bloomberg. No mês seguinte, a United Cacao arrecadou US$ 10 milhões em sua abertura de capital, em Londres, e as ações subiram 35% desde então.

O cacau é um cultivo temperamental e só pode ser realizado a cerca de 10 graus da linha do equador. Por ter terras em condições ideais e disponíveis para o cultivo imediato na selva sul-americana, Melka afirma que a região amazônica está despontando como um fornecedor primordial para os produtores de chocolate.

Os preços do cacau vêm aumentando desde 2011 e agora estão em cerca de US$ 2.900 por tonelada.

— Estamos correndo para plantar porque este preço é incrível — disse Melka. — O “Vale do Silício” do setor cacaueiro não fica na Ásia nem na África; fica no cinturão amazônico equatoriano e peruano.

Melka pretende pegar uma fatia do mercado da África Ocidental, onde o cacau é cultivado principalmente por pequenos produtores e vendido à Cargill, pela Barry Callebaut, da Suíça, e pela Olam International, que são processadores de grande porte.

À medida que a demanda global aumentar, conduzida em parte pela mudança das preferências do consumidor na Ásia, a Organização Internacional do Cacau projeta uma escassez de 100 mil toneladas no atual ano de cultivo. A fabricante de doces Mars prevê que em 2020 a escassez será de um milhão de toneladas.

VASSOURA-DE-BRUXA

A M. Libânio Agrícola, produtora e processadora brasileira de cacau desde 1920, pretende triplicar a produção em nove fazendas com 627 mil hectares na Bahia, disse Eimar Sampaio Rosa, diretor e acionista da empresa.

A Bahia já foi a segunda maior região exportadora do mundo e os produtores ainda estão se recuperando de uma epidemia de vassoura-de-bruxa, que devastou as safras na década de 1990, e de um longo período de preços baixos, disse Rosa, cuja empresa abastece a Nestlé e a Bonnat Chocolatier, da França.

— Os níveis de dívida ainda são muito altos entre os cafeicultores depois de todos os problemas que eles enfrentaram — disse Rosa. — O Brasil poderia aumentar substancialmente os níveis de produção e talvez se tornar exportador em 15 anos se os produtores tivessem acesso ao crédito.

Empresas como a Cargill e a Barry Callebaut continuarão se concentrando na África Ocidental e estão ajudando produtores da Costa do Marfim e de Gana a aumentarem os rendimentos para estimulá-los a continuar plantando cacau, disse Victoria Crandall, analista de commodities do Ecobank, em Abidjan, Costa do Marfim, em entrevista por telefone.

— A demanda por chocolate só vai aumentar, principalmente na Ásia — disse Victoria. — A médio e a longo prazos, esse é um mercado muito altista.